Ifá-Òrúnmilá

ORÚNMÌLÀ / IFÁ - É a soma da sabedoria suprema, a vida e a morte, o nascimento da natureza, a visão total do mundo e da existência estabelecendo normas éticas que irão comandar as sociedades e os homens.

É o equilíbrio que ajusta as forças que conduzem à sustentação do planeta. Orúnmìlà representa a antiga sabedoria do Culto Yorùbá. Seu maior símbolo é o ikin - o caroço da fruta do dendezeiro, através do qual os Oluwo/ Bàbáláwo se comunicam através do oráculo Ifá para saber sobre o nosso destino.

Orúnmìlà ou Ifá-Orúnmìlà, a divindade oracular dos Yorùbá, é respeitado por sua sabedoria. As palavras Ifá-Orúnmìlà e Orúnmìlà designam a divindade, enquanto Ifá designa, simultaneamente, a divindade e o sistema divinatório a ela associado.

Orúnmìlà forma-se da contracção de Òrun-l'ó-mo-à-ti-là (somente o céu conhece os meios de libertação), ou de Òrun-mo-olà (somente o céu pode libertar). Ifá, por sua vez, tem por raiz fá (acumular, abraçar, conter), indicando que todo o conhecimento tradicional Yorùbá acha-se contido no corpus literário de Ifá, ou Òdú Corpus.

Seus principais símbolos são ikin (sementes de palmeira), òpèlè (a corrente divinatória, de uso privativo de seus sacerdotes, feita com oito metades da semente sagrada de mesmo nome), óta (pedra de assentamento), ìrùkèrè (cauda de animal que, após preparo artesanal e mágico, é carregada por sacerdotes e reis como sinal de realeza e poder), obi, orobô, búzios e pedaços de presa de elefante gravados, que ficam guardados em um receptáculo colocado em lugar alto, num canto ou no centro do cômodo. Seus colares e pulseiras são confeccionados alternando-se contas de cor verde e marrom.

Para orientar os que o procuram, o sacerdote de Ifá, chamado Bàbáláwo (pai do segredo), reporta-se ao Òdú Corpus, conjunto riquíssimo de conhecimentos esotéricos e registros históricos da milenar Tradição Yorùbá.

Utiliza-se de sementes de ikin ou da corrente òpèlè, cuja configuração geomântica remete a um dos 256 Òdú lá contidos, cujos itan (narrativas míticas) estabelecem analogias entre a situação das personagens e trajectória existencial do consulente.

Ifá compreende todos os idiomas da terra, o que lhe possibilita aconselhar todos os seres humanos, sem excepção.

O corpus literário de Ifá guarda a história dos Òrìsà e o ensinamento de curas através do uso de ervas. Por isso seus sacerdotes devem conhecer, além da prática divinatória, o preparo de remédios.

Orúnmìlà tem por irmão mais novo Ossanyìn, a divindade da cura, de cujo auxílio serve-se desde os primórdios. No jogo oracular, Èsù é divindade particularmente importante, dada a sua relação estreita de amizade com Ifá.

Indivíduos de várias origens têm procurado iniciações em Ifá, tanto em território Africano quanto nos países da diáspora. Esta prática é altamente recomendável, pois esta iniciação, em particular, marca seu ingresso formal na Religião Tradicional Yorùbá. Além disso, em tal circunstância revela-se o Òdú de nascimento de cada pessoa, que indica o seu destino na terra.

As regras que o Bàbáláwo obedece incluem não se aproveitar das próprias prerrogativas. Como possui amplos e profundos conhecimentos é procurado por muitas pessoas, algumas em situação de crise, fragilizadas pelas circunstâncias difíceis que enfrentam, mergulhadas num sofrimento do qual querem escapar, literalmente, a qualquer preço, e isto favorece o abuso de poder.

Entretanto, recebe a advertência de não agir em benefício próprio. Entende-se que o grande privilégio e a grande riqueza do sacerdote de Orúnmìlà residem na oportunidade de estar a seu serviço. Este Itan do Òdú ÒfúnSe, narrado ao Babá King pelo venerável Babalaô Fabunmi Sowunmi, elucida a esse respeito:

 

 

Eni to ba puro

Iro a pa

Eni ti o ba seke

Eke a ke won lowo

A ke wån lese

A ti won si gburugburu ona oun

Awon lo se ifa fun ajangurumale

Ti nse oluwo lode orun

Gbogbo eni ti o ba

Nfi suru pe suru

Ajangurumale ifa

Ni yoo ja won sorun

Gbogbo eni ti o ba

Nfi suru pe suru

Ajangurumale, ifa ni yoo ja won sorun

E ma fi oku pe aye

E ma fi aye pe oku

Eni ti o ba fi oku pe aye

Eni ti o ba fi aye pe oku

Ajangurumale ifa ni yoo ja won sorun

Ajangurumale

E ma fi abiyamo pe agan

E ma fi agan pe oyibi

Eni ti o ba fi abiyamo pe agan

Ti o fi agan pe oyibi

Ajangurumale, ifa ni yoo ja won sorun.

 

 

 

Tradução deste Itan:

 

 

Aquele que mente, será destruído pela mentira

Aquele que provoca discórdia será destruído pela discórdia.

A falsidade despojará o falso da força vital de que dispõe. A falsidade destruirá os falsos.

Foram eles que adivinharam para Ajagunmale (Ifá), sábio supremo no Òrún.

Todos aqueles que trocam a verdade pela mentira serão levados para o Òrún por Ajagunmale (Ifá)

Não chamem o morto de vivo, nem chamem o vivo de morto

Quem chama o morto de vivo ou chama o vivo de morto será levado para o Òrún por Ajagunmale (Ifá)

Não chamem uma mulher fértil de estéril, nem chamem uma mulher estéril de fértil

Quem chama uma mulher fértil de estéril ou chama uma mulher estéril de fértil será levado para o Òrún por Ajagunmale (Ifá)

Não chamem o preto de branco, nem chamem o branco de preto

Quem chama o preto de branco ou chama o branco de preto, será levado para o Òrún por Ajagunmale (Ifá)

Orúnmìlà diz que prefere matar o Bàbáláwo que mente para quem o procura em busca da verdade e colocar em seu lugar um homem ignorante a respeito da complexa sabedoria de Ifá

Orúnmìlà prefere um homem que não conhece a sabedoria de Ifá do que um grande conhecedor dessa sabedoria que seja falso e mentiroso.

 

 

Obras Consultadas:

 

 

Youbana

 

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Alma Africana no Brasil Os iorubás

Os Òrìsà de Pierre Fatumbi Verger

SÀLÁMÌ, S. A Mitologia dos Orixás Africanos-Oduduwa, 1990